Rasuras de uma vida suburbana
"O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece", sábias palavras de Charles Bukowski.
Posted on Terça-feira, Novembro 10, 2009

A Loucura, a Extravagância, a Insensatez e a Imprudência num Único Tronco Humano - Parte III

Filed Under () By Edson Nunes

Sempre me gabei da minha pontualidade nos encontros – seja profissional, amoroso ou simplesmente casual –, mas naquele dia algo estava errado com o meu organismo. Uma baita dor de cabeça me fez passar a noite em claro, revirando de um lado para o outro na cama e resmungando sem parar com o meu próprio eu.
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Quando finalmente o sono veio à tona, o relógio indicava 7h42, mesmo assim, decidi tirar um breve cochilo que, na verdade, se estendeu até às 16h45, quando o telefone do hotel tocou, e a antipática recepcionista avisou que a Paloma – a mulher do encontro na frente do Sant Etiene, às 9h00 – aguardava a minha autorização para subir.
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Mal abri a porta, e a Paloma já descarregou sua metralhadora oral:
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– Já me deu um bolo no primeiro encontro? Acho que você não merece um renomado agente literário, merece?
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– Talvez não, mas no próximo encontro – se tiver, é claro – você exija à minha enxaqueca que ela não apareça na noite anterior, e que me deixe dormir tranquilamente, assim eu posso comparecer em todo e qualquer encontro com a senhorita. Combinado? – ironizei.
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– Nesta súbita vida, ouvi muitas desculpas, mas essa com certeza foi a melhor! – respondeu Pamela com o mesmo nível de ironia.
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– Ok, se não acredita, tá tudo certo! – afirmei meio atordoado, ainda com a cabeça girando, devido à noite mal dormida.
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Com um olhar fixo e desacreditado, Paloma disse que o meu encontro com o agente literário seria no próximo fim de semana, e que seria bom eu preparar um bom rascunho sobre o que livro iria abordar, um currículo profissional e acadêmico.
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– Nossa, preciso levar também RG, CPF, comprovante de residência, ou quem sabe, o meu tipo sanguíneo?
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– Como já te falei anteriormente e você parece não ter escutado: o rapaz é super renomado no meio. Ele é exigente, só isso!
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Eu ainda estava de cueca, com o cabelo eriçado, e sem escovar os dentes, quando a explicação sobre os conhecimentos referente à minha pessoa foram revelados.
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– Eu trabalhei no True Bank por seis meses, fui assistente na época que você era Superintendente da área Comercial. Meu tio é dono do Sant Etiene Brasil, e me disse que um rapaz – possivelmente escritor – tinha se hospedado no hotel, seu nome era Nico Gomes. Como eu sou professora de Português, logo me interessei, e alguma coisa me dizia que esse nome não era estranho . Quando eu te vi no Café da Leonora, na hora me recordei do meu queridíssimo chefe!
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– Caramba! A senhorita associa os fatos muitíssimo bem, não?
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– Pois é, pra você ver!
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Terminada a explicação, pedi um tempo para ir ao banheiro me arrumar, antes de tomarmos o café que, naquele instante, seria o da tarde. Após tomar um banho, escovar os dentes, pentear o cabelo e colocar o roupão, abri a porta do banheiro, para a minha surpresa não vi a Paloma sobre a cama ou sentada na cadeira próxima à janela.
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Antes mesmo de colocar a minha cueca, a porta de entrada abriu violentamente, e um carrinho com alguns lanches, cervejas e uma garrafa de champanhe surgiu na minha direção.
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– Opa, opa! Pensei que você estava com fome, que dizer, na verdade está, mas fome de outra coisa, né? – perguntou Paloma com uma voz tremula ao me ver com a cueca na mão e a parte íntima à vista.
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– Calma, não tenho culpa que você não bate na porta e não me deixa colocar a roupa em paz.
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Rapidamente coloquei a cueca e a bermuda, e começamos a comer e beber aquela fartura. Com a mesma rapidez que coloquei a roupa, fiquei bêbado com tanta cerveja e
champanhe. O mesmo aconteceu com Paloma – pelo menos era o que eu achava.
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Antes de qualquer atitude ou pensamento em aproveitar sexualmente da professorinha, o meu corpo se entregou inteiramente ao sono profundo. Ao acordar, tudo parecia estar no seu devido lugar, porém não estava.
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Minha carteira foi extremamente esvaziada, meu notebook não estava no armário, meus sapatos e tênis não estavam na mala, muita coisa havia sido roubada, quase tudo, pra falar a verdade.
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Quando fui dar queixa na delegacia, constatei que não existia nenhuma professora de Português chamada Paloma na cidade, o dono do Sant Etiene Brasil, na verdade, era dona, uma senhora de 78 anos. Porém, até hoje não descobri como a Paloma – ou quem sabe Joana, Alessandra, Camila, ou qualquer outro nome que aquela senhorita possuía – sabia que eu era um ex-funcionário do True Bank, um aspirante a escritor e o mais instigante: o meu pobre nome Nico Gomes.
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No final das contas, após este incidente, voltei a morar com a minha mãe por um tempo, arrumei um emprego em outro banco, conheci a Luzia e me casei com ela, tive duas filhas lindas, Carol e Lara. Depois de outro tempo, me separei de Luiza, passei a ver as minhas filhas a cada 15 dias e, novamente, voltei a morar com a minha mãe. E, o desvairado sonho de escrever um livro foi ficando de lado, até que, mais uma vez, eu realizei a mesma loucura de largar tudo, com mais cautela e malícia, óbvio.
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Hoje, faz três anos que o livro foi publicado, por uma editora pequena do interior. Não é nenhum best-seller da atualidade, muito menos consigo viver de direitos autorais sobre ele, mas depois de muita persistência e determinação, a minha animada epopéia literária foi concluída.