Rasuras de uma vida suburbana
"O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece", sábias palavras de Charles Bukowski.
Posted on Segunda-feira, Agosto 24, 2009

Epopeia do Cotidiano - Parte III

Filed Under () By Edson Nunes

Por muitas vezes, sem rumo, sem direção, sem destino, e todas as citações inseguras e banais que enfatizam e determinam uma pessoa que vive no ermo, eu nunca mantive um diálogo prazeroso – muito menos construído uma relação – com uma profissional do sexo, prostituta, puta, garota de programa, piranha, vadia, vagabunda, rapariga, e todas as denominações existentes no globo terrestre, para aquela, que cuja as lábias proféticas, afirmam ser a profissão mais antiga do mundo, nada além de um simples clichê motivacional.
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Não que a Nanda – conhecida na praça como Anita – fosse a pessoa mais mequetrefe da face terra, porém eu como um nobre rapaz pertencente à alta elite falida, jamais, em hipótese alguma, poderia me relacionar afetivamente com uma mulher daquela categoria peculiar, assim estabelecia os preconceituosos mandamentos sociais.
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Após a descoberta inusitada devido às informações captadas na cozinha, corri para o quarto alternando dois pensamentos: perguntar a verdadeira profissão – ou quem sabe o hobby – da Nanda, ou aproveitar o tempo que ainda tinha disponível, com a bendita missão de testar toda a possível experiência sexual daquela mulher. Mas, ela antecipou qualquer reação:
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– Sim, eu sou prostitua, amor. Bem diferente da grande maioria, mas sou!
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Puta que pariu! A mina realmente era biscate, fudido narrador? Isso mesmo, astuto leitor, todo esse tempo eu estava convivendo com uma vendedora de orgasmos. E, o pior, eu adorava aquilo tudo.
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Meu primeiro raciocínio com aquela confissão foi sentir-se um idiota, um ingênuo, um moleque numa aventura mal sucedida. Novamente, antes de proferir alguma palavra, a Nanda foi mais rápida no gatilho:

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- Amor, desde quando eu te conheci, gostei do seu jeito sensível de ser. Lembra do nosso primeiro encontro, lá no bar do Anselmo? Então, tinha acabado de fazer um programa, resolvi tomar alguma coisa antes de ir para casa e, para minha surpresa, conheci você!
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Uma revolta interna crescia a cada segundo. E, mais uma vez, quando eu pretendia dizer algo, ela me interrompeu com lágrimas:
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- Desculpe se o que você sente nesse momento é ruim. Antes de qualquer palavra agressiva, esqueça todo esse orgulho ferido e o preconceito que supostamente há em você. Posso ter manipulado e omitido os fatos, mas convenhamos, uma pessoa de 45 anos precisa ter mais malícia em seu cotidiano?
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Entre lágrimas de crocodilos, uma voz trêmula, e soluços volúveis, minha vontade era de espancar aquela figura feminina bem composta, porém, eu realmente fui ingênuo, tinha que dar o braço a torcer. Então, perguntei:
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- Você é uma vadia diferente? Diferente como, porra!
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Num simples tom de veracidade e cautela, a nobreza da luxúria, proferiu:
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- Trabalho numa casa em Perdizes, onde os maiores engravatados de São Paulo frequentam, só que tem um simples detalhe neste processo: eu escolho com quem vou fuder! Entendeu?
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Respondendo à altura, ironizei:
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- Sou um escolhido que não precisou pagar? Interessante! Tenho o dom de seduzir a imponente prostituta que escolhe sua vítima indefesa, que por sua vez, está disposta a abrir sua respectiva carteira, num ato de generosidade sem tamanho, com o trabalho requisitado. Sem sombra de dúvidas, você tem o total poder em suas mãos.
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Com a raiva transbordando pela boca, a Nanda se vestiu rapidamente e soltou:

- Tá duvidando, né? Vou te levar lá! Se arruma, garotão!
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A fúria da Nanda estava mais evidente do que nunca, no trajeto de sua suburbana casa até a requintada casa em perdizes, chegamos em poucos minutos, sem respeitar nenhuma sinalização, ou muito menos, ter o juízo de prevenir nossos corpos, ou melhor, o dela, que no caso, era o ganha pão mais eficaz que ela descobriu ao longo da vida.
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Observei cada detalhe interno da mansão, desde a estrutura aos móveis presentes, quando percebi a movimentação dos engravatados, numa espécie de bar improvisado, repleto de mesas luxuosas, onde algumas meninas escolhiam suas vítimas. Foi quando escutei uma delas afirmando:
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- O doutor Antônio Lofred é meu meninas, venho escolhendo ele há mais de um mês!
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Aquele papo furado da Nanda de escolher com quem vai fuder realmente era verdade, os caras pagavam a entrada, ganhavam as cervejas e aguardavam ansiosamente no bar a prostituta que o escolheria e, sem hesitar, pagava o valor que a puta estipulava pelo programa.
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No final das contas, continuo com o descolado e moderno casamento, ainda sou o “Fudido Proprietário Majoritário” da advocacia “Dos Saldanhas”, e todo santo dia tenho que ir ao bar do Anselmo, como o de costume. E, sem esquecer que, até hoje, tenho uma relação com a Nanda e, sempre que possível, peço pra ela me levar naquele ambiente onde as regras conhecidas são totalmente invertidas.

Posted on Quarta-feira, Agosto 19, 2009

www.sempreemtransito.com

By Edson Nunes

Interrompendo a continuação do conto Epopeia do Cotidiano, tenho a felicidade de informar que este blog agora possui o domínio “.com”.
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Uma nova peripécia vem por aí!
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Posted on Terça-feira, Agosto 11, 2009

Epopeia do Cotidiano - Parte II

Filed Under () By Edson Nunes

Há três anos que vivo praticamente sozinho, com uma irrisória rotina impregnada nas minhas manhãs: buscar o jornal no quintal, preparar o café, dar comida pra Estela – minha vira-lata companheira – e o mais chato, sem sombra de dúvidas, passar a escolhida roupa do dia.
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Aí você, caro leitor, me pergunta: O senhor narrador, de quinta categoria, não é casado? Sim, eu sou, mas só em tese. Aí, o caro leitor, novamente faz outra indagação: Como assim, grandessíssimo narrador? Calma, uma esclarecedora explicação está por vir.
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Meu matrimônio nunca se desenvolveu inteiramente, a famosa crise dos sete anos foi antecipada pela Aline, nossa relação estava totalmente desgastada já no terceiro ano de casamento, discussões faziam parte da convivência diária, era quase um filho alimentado por um sentimento de dominação, raiva e angústia. Resumindo, o grande desafeto era visível para todos, inclusive, para os funcionários da advocacia.
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Então, uma atitude foi tomada pelos dois cérebros cansados: uma simples separação de casa, apenas isso, enquanto no papel e na afetividade tudo foi mantido, uma espécie de relação moderna empregada pelos descolados da sociedade contemporânea foi estabelecida entre nós.
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Quando havia necessidade de carinho, amor e sexo, combinávamos de sair depois do serviço e nos finais de semana. Imagine uma troca de favores e interesses sem nenhuma cobrança, simplesmente formidável, pois não era um namoro, casamento ou pura pegação, e sim, um encontro prazeroso de duas almas – essa era a explicação da Aline, após ler um livro de um hippie liberalista, totalmente contra a instituição conjugal.
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Enfim, explicada a minha situação amorosa com a minha esposa, acho que está na hora de abordarmos, mais uma vez, o estimulante assunto denominado como Nanda. Tínhamos frequentes discussões sobre política barata no bar do Anselmo, repetíamos por muitas vezes alcoolizados, a clássica argumentação sobre a lendária integridade dos partidos PT e PSDB, ela afirmava que ambos partidos são corruptos e sujos, já a minha pessoa defendia os petistas e a falsa moral da esquerda – sem nunca ter a compreensão exata do que realmente significa ser oposição nesse conturbado país.
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Em um desses diálogos, antes de pagarmos nossas comandas engorduradas, a Nanda me fez um convite irrecusável e lógico: conhecer sua casa. A confidente morava numa travessa da Augusta, e é óbvio que eu não lembro o nome da rua. O apartamento era simples, poucos móveis e utensílios, apenas o necessário para sobreviver, sem luxo e extravagâncias.
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Enquanto a moça se preocupava em mostrar todos os detalhes da sua residência, eu não conseguia parar de observar aquele corpinho delicioso, bronzeado e devidamente malhado na medida certa. E num impulso de adolescente afobado, encostei a minha nova amante na porta do banheiro e comecei a beijá-la desesperadamente.
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Aquele ato eufórico resultou na nossa primeira trepada, a intimidade que ainda nos faltava. Depois do sexo, veio a ervinha descolada, acompanhada de um café gelado e amargo. Ao me dirigir à cozinha, para colocar as antigas xícaras na pia, minha percepção aguçada verificou uma gaveta aberta, com alguns panfletos prestes a caírem no chão.
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Com uma gentileza sem tamanho, resolvi pegar os panfletos e colocá-los corretamente na gaveta, quando uma surpresa veio à tona: “Venha conhecer as fogosas do Casarão, as vadias mais técnicas que o mercado dispõe, pelo pequeno valor de 60 reais mais duas cervejas na faixa”.
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Que merda era aquela na gaveta, meu nobre narrador? Espere, ansioso leitor, não terminei a minha análise naquela cozinha reveladora. Ao virar o pescoço observo alguns papeizinhos com anotações presos por imãs na geladeira. O que estava escrito? Milhares de nomes de homens e seus respectivos telefones.
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Continua...

Posted on Segunda-feira, Agosto 03, 2009

Epopeia do Cotidiano - Parte I

Filed Under () By Edson Nunes

Trabalho há anos na Rua dos Timbiras, uma travessa da Santa Ifigênia – inferninho básico de pessoas – num falido escritório de advocacia, que já foi do meu tio Pedro, do saudoso tio Agenor, do trapaceiro tio Claudião, e hoje, pertence a minha problemática pessoa, esse negócio é simplesmente um membro da família Saldanha.
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Bem no início, eu entrava às 9h00, e saía no máximo às 15h00, um horário tranquilo para um adolescente, na época, com 16 anos. Naquele tempo de fartura de clientes, tudo era maravilhoso e cômico, eu como um legítimo “Office-nada”, mal tinha coisas para fazer a não ser, claro, deslumbrar-se com a Tânia, secretária do tio Pedro, detentora da melhor bunda que já vi até o presente momento, em que escrevo este manuscrito – confuso e desleixado – na minha estreita sala, do lado do banheiro dos visitantes, no início do corredor amarelado, terceira porta à direita.
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Qual é o meu cargo hoje em dia? Fácil de responder: Fudido Proprietário Majoritário, que ganha tão pouco, quanto exerce suas responsabilidades e funções diárias, uma espécie de mobília antiquada da advocacia “Dos Saldanhas”.
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Por falar do meu querido emprego, o clássico estabelecimento está vivendo uma extrema decadência financeira, na verdade a falência é questão de tempo. A advocacia possui doze funcionários, entre eles, a Aline – minha mulher –, colaboradora mais velha dessa birosca, uma autêntica sobrevivente de guerra trabalhista, que todos os dias não esquece de frisar sua opinião de acabar com a empresa, vendê-la rapidamente, me aconselhando procurar uma nova maneira de ganhar o pão de cada dia, uma atitude arriscada nessa altura da vida, afinal, tenho 45 anos, porém essa possibilidade é a mais real e sensata na atualidade.
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Confesso por meio dessas linhas mal impressas do mini caderno de terceira linha comprado por 50 centavos na banca do Felipinho, que sou formado em porra nenhuma, muito menos em Direito, porém todos acham que sou. Legal isso, né? Olha o sarcasmo, meninão!
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Continuando a narrativa da minha estimulante vida social, todo santo dia costumo ir ao bar do Anselmo, localizado também na Santa Ifigênia, numa travessa cujo seu nome foge da minha memória agora, só sei que é perto do meu querido trabalho. Ultimamente a única coisa que posso pagar, é uma caipirinha de vodka, acompanhada de um churrasquinho no pão, com muito molho de alho.
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Em um desses dias, há seis meses, conheci a Nanda, tinha acabado de chegar no butecão e cumprimentar a rapaziada, quando me dei conta da presença de uma mulher naquele ambiente fétido totalmente masculinizado. Sentei na minha mesa – sempre tive necessidade de marcar território nos lugares onde frequento -, observei a figura feminina sentada em uma das cadeiras do balcão, de baixo para cima: um sapato digno, uma boa calça social preta, uma camisa branca, um terninho cinza e, por fim, um olhar estranho, não consigo nem fudendo descrever ou definir com alguma palavra o que os olhos dela retratavam, era uma expressão complicada, o meu vocabulário não é muito vasto e eficiente, desculpe, caro leitor.
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Após saborear a refeição majestosa, fui pagar os R$ 7,50 da minha comanda, tirei as notas amassadas e moedas empoeiradas do bolso, entreguei a pequena quantia ao Anselmo, e logo escuto uma voz diferente:
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– Você também é adepto de uma caipirinha no final do expediente? Isso é uma válvula de escape diária pra mim, sabe? – palavras de uma possível alcoólatra, deprimida e carente a minha pessoa.
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Após esse primeiro diálogo corriqueiro, muitos outros aconteceram entre nós, regados de caipirinha de vodka, pinga pura, cerveja barata e, nos dias frios, quem dava o tom da conversa era um vagabundo vinho tinto.
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Sem ao menos perceber, todos os dias eu encontrava a Nanda, que já se tornava uma confidente fiel em pouco mais de dois meses; eu desabafava tudo com ela, realmente tudo, mesmo sem saber quem era aquela mulher de verdade, que por sua vez, também compartilhava sua vida cotidiana comigo todos os santos dias.
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Continua...