Foi numa terça-feira que conheci a Sandra, uma mulher aparentemente surtada, comunicando-se consigo mesmo numa livraria. A cada livro que ela retirava aleatoriamente da prateleira um gritinho era dado:
- Uiiiiiiiiiiii, esse não me tocou.
Consegui contar quinze gritinhos, até que, uma funcionária da livraria foi falar com ela. E o espetáculo começou:
- Com licença, senhora. Será possível a senhora não emitir gritos desta forma Outros clientes estão reclamando.
- Foda-se eles todos. No mínimo são medíocres que não sabem sentir uma boa literatura. Idiotas, não ligue, filha! – respondeu a mulher.
- Certo, certo, mas os gritos atrapalham quem está lendo. Caso a senhora continuar, o gerente solicitará aos seguranças que a tirem da livraria.
- Hum... Você não está falando sério, está? E o meu direito? Cadê? Quero sentir cada livro que pego, é um processo íntimo que possuo, sabe?
Antes mesmo que a funcionária respondesse, dois negões vestidos com ternos e gravatas cinzas – cor fora do padrão preto e branco estipulados aos seguranças – agarram a doida e a jogaram na rua.
A paz estava novamente estabelecida. Engano celeste. Para a surpresa das pessoas presentes na livraria, a mulher voltou com três policiais devidamente enlouquecidos como ela. O grupo entrou e rapidamente fez a maior algazarra. Os policiais totalmente equivocados foram intimando de forma rude os seguranças que, sem ao menos refletirem, também foram ríspidos. O resultado não podia ser outro: porrada generalizada.
A briga corria solta enquanto eu folheava um livro qualquer. Inúmeros socos, chutes e cabeçadas entre os três policiais – todos baixinhos e desprovidos de músculos – e os seguranças – armários feitos de madeira maciça – rolavam de forma interrupta quando, disfarçadamente, a surtada deixou o ringue em direção à padaria do outro lado da rua.
Aproveitei a confusão desordenada roubando dois livros: Romance Sem Palavras, do Carlos Heytor Cony, e Mensagem, do Fernado Pessoa. Assim que saí da livraria, uma vontade inesperada de entrar na padaria e falar com a desvairada me apareceu – talvez pela insensatez que sempre me acompanhou.
Adentrei no recinto e logo encontrei a mulher encostada na parede próxima ao banheiro feminino.
- Opa, eu acho que a protagonizante não está na no set de filmagem do outro lado da rua.
- Quer tomar uma cerveja comigo?
- Por que não? Duas cervejas naquela mesa lá do fundo, garçom!
Continua...
